Em 1967, o cineasta Glauber Rocha lançou o filme Terra em Transe, uma obra intensa que retrata um país mergulhado em crise, confusão e perda de rumo. Décadas depois, a metáfora do “transe” parece ecoar de forma inquietante — não apenas na política, mas no próprio estado do planeta. Vivemos um tempo de excessos, de aceleração constante, em que produzir e consumir se tornaram quase automáticos, enquanto os sinais de esgotamento ambiental se tornam cada vez mais evidentes.
Celebrado em 22 de abril, o Dia da Terra ultrapassa o simbolismo de uma data comemorativa e se estabelece como um chamado à responsabilidade coletiva. Em um tempo marcado por avanços tecnológicos e conforto material, cresce também uma contradição silenciosa: quanto mais produzimos e consumimos, mais pressionamos os limites naturais do planeta. Como aponta José Eli da Veiga, o desenvolvimento contemporâneo exige uma revisão profunda de seus próprios fundamentos, especialmente quando ignora os limites ecológicos que o sustentam.
A sociedade contemporânea consolidou-se sob a lógica do consumo contínuo. Não se trata apenas de suprir necessidades, mas de alimentar desejos constantemente renovados. Nesse contexto, a obsolescência — muitas vezes planejada — tornou-se um mecanismo estruturante. Dispositivos como celulares são substituídos em intervalos cada vez menores, impulsionados por atualizações que nem sempre correspondem a uma necessidade real. Esse padrão reforça o que Reinaldo Dias descreve como um modelo de produção e consumo que desconsidera os impactos ambientais de longo prazo, contribuindo para o esgotamento dos recursos naturais.
O modelo linear de produção — extrair, produzir, consumir e descartar — revela-se incompatível com a capacidade de regeneração da Terra. Para Enrique Leff, a crise ambiental é, antes de tudo, uma crise de racionalidade: um modo de pensar que fragmenta a relação entre sociedade e natureza, tratando os recursos naturais como infinitos. Essa lógica, ainda predominante, intensifica não apenas a degradação ambiental, mas também desigualdades sociais e econômicas.
Diante desse cenário, a sustentabilidade deixa de ser uma escolha e passa a ser uma exigência do nosso tempo. Mais do que preservar, trata-se de reorganizar a forma como vivemos. Como destaca Pedro Roberto Jacobi, a construção de sociedades sustentáveis depende de uma cidadania ativa, informada e comprometida com práticas responsáveis. Isso implica rever hábitos, questionar padrões e adotar práticas que conciliem desenvolvimento e responsabilidade ambiental.
Famílias, escolas e sociedade exercem, nesse processo, papéis essenciais e complementares. À família cabe o exemplo cotidiano, na formação de valores e atitudes. À escola, a responsabilidade de promover uma educação crítica e consciente. Nesse sentido, Carlos Frederico Bernardo Loureiro ressalta que a educação ambiental deve ir além da informação, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de intervir na realidade de forma ética e transformadora. Já a sociedade, como um todo, é chamada a consolidar uma cultura que valorize o cuidado e o uso responsável dos recursos naturais.
No cotidiano, ações simples podem gerar impactos significativos. Os chamados “Rs da sustentabilidade” — reduzir, reutilizar, reciclar, repensar e recusar — traduzem, de forma prática, um novo modo de agir. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o consumo sustentável envolve escolhas conscientes que consideram não apenas o preço e a utilidade de um produto, mas também seus impactos sociais e ambientais ao longo de todo o seu ciclo de vida.
Mais do que um conjunto de práticas, trata-se de uma mudança de mentalidade. Cuidar da Terra é um compromisso contínuo, que se revela nas escolhas mais simples. Ao desacelerarmos o consumo e valorizarmos o essencial, abrimos caminho para um futuro mais equilibrado. Afinal, como sintetiza José Eli da Veiga, não há desenvolvimento possível em um planeta ambientalmente esgotado.
O Dia da Terra, portanto, não se limita a uma celebração, mas se configura como um convite permanente à reflexão e à ação. Em meio ao “transe” de excessos que marca o nosso tempo, talvez o maior desafio — e também a maior urgência — seja reaprender a fazer pausas. O futuro que desejamos começa, inevitavelmente, nas decisões que tomamos hoje.
Referências
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Consumo sustentável:
manual de educação. Brasília: MMA, 2005.
DIAS, Reinaldo. Gestão ambiental: responsabilidade social e
sustentabilidade. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
JACOBI, Pedro Roberto. Educação ambiental, cidadania e
sustentabilidade. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 118, p. 189-205, 2003.
LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade,
racionalidade, complexidade, poder. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
LOUREIRO, Carlos Frederico Bernardo. Trajetórias e
fundamentos da educação ambiental. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2012.
VEIGA, José Eli da. Desenvolvimento sustentável: o desafio
do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond, 2010.