Desenvolvimento e Comportamento

Crianças perguntam. E agora?

Como famílias e escolas podem acolher dúvidas da infância com diálogo, escuta e responsabilidade educativa.

Publicado em 30 Mai 2026
Capa da Pauta

Em algum momento do desenvolvimento infantil, as perguntas mudam de natureza. Aquilo que antes se limitava à curiosidade sobre o funcionamento das coisas — por que chove?, de onde vem o vento?, como os pássaros voam? — passa a incluir questões mais delicadas e, muitas vezes, desconcertantes para os adultos: sexualidade, relações afetivas, drogas, diferenças entre as pessoas, transformações do corpo ou identidades.

Quando essas perguntas surgem, é comum que pais e educadores experimentem uma sensação de surpresa ou mesmo de insegurança. Surge então uma dúvida recorrente: será que as crianças estão deixando de ser crianças cedo demais?

Não necessariamente. Os estudos sobre o desenvolvimento infantil indicam que as crianças de hoje têm acesso mais precoce a informações, linguagens e experiências sociais, especialmente por meio das mídias digitais e das interações ampliadas do cotidiano. Isso faz com que formulem perguntas mais complexas em idades menores — mas não significa, obrigatoriamente, que estejam “deixando de ser crianças”.

Nesse cenário, torna-se ainda mais importante o acompanhamento atento dos adultos. Crianças e adolescentes estão expostos, muitas vezes sem a mediação necessária, a conteúdos, discursos e referências que nem sempre são adequados à sua faixa etária ou maturidade emocional. Por isso, mais do que apenas restringir acessos, é fundamental que as Famílias acompanhem, conversem e compreendam aquilo que os filhos têm consumido no ambiente digital e nas diferentes relações sociais.

Ainda assim, a psicologia do desenvolvimento indica que o que ocorre é, em grande parte, o próprio movimento natural do crescimento. A criança amplia seu repertório de experiências, observa o mundo ao seu redor e tenta interpretar aquilo que ainda não compreende completamente. Nesse processo, perguntar é uma forma de aprender.

O psicólogo suíço Jean Piaget já afirmava que o conhecimento não é simplesmente transmitido, mas construído ativamente pela criança na interação com o ambiente. Como sintetiza o autor:

 

“O principal objetivo da educação é formar indivíduos capazes de criar, inventar e descobrir, e não apenas repetir o que outras gerações fizeram.” (PIAGET, 2011).

 

  Assim, as perguntas que surgem na infância não devem ser vistas como um problema, mas como sinais do desenvolvimento intelectual e da ampliação da consciência social.

 

A curiosidade como parte do desenvolvimento

 

A infância é um período marcado pela intensa construção de significados. À medida que a criança cresce, ela passa a perceber aspectos mais complexos da realidade e busca interpretá-los com base nas referências que encontra em seu ambiente.

Para o psicólogo Lev Vygotsky, o desenvolvimento humano acontece fundamentalmente por meio das interações sociais. É na relação com o outro que a criança organiza suas ideias, constrói conceitos e compreende valores culturais.

 

“É através dos outros que nos tornamos nós mesmos.” (VYGOTSKY, 2007).

 

Isso significa que as perguntas feitas pelas crianças muitas vezes refletem aquilo que elas observam no cotidiano: conversas entre adultos, conteúdos que circulam nos meios de comunicação, experiências escolares ou relatos de colegas.

Nesse cenário, o silêncio ou a evasão raramente são estratégias educativas eficazes. Quando os adultos evitam determinados temas, a criança pode interpretar que se trata de algo proibido ou vergonhoso — ou simplesmente buscar respostas em fontes menos confiáveis.

 

O papel da família: escuta, diálogo e referência de valores

 

Especialistas em educação familiar destacam que a primeira atitude diante de perguntas complexas deve ser escutar com atenção.

A psicóloga e educadora brasileira Rosely Sayão, referência nacional em orientação familiar, destaca que muitas perguntas infantis são menos complexas do que parecem:

 

“A criança pergunta exatamente aquilo que quer saber. Quem complica a pergunta, muitas vezes, é o adulto.” (SAYÃO, 2015).

 

Antes de responder, pode ser útil perguntar à própria criança o que ela já sabe ou por que aquela dúvida surgiu. Esse pequeno gesto permite compreender melhor o contexto da pergunta e evita explicações excessivas ou inadequadas para a idade.

Outro ponto fundamental é compreender que conversar sobre temas sensíveis não significa estimular comportamentos, mas oferecer referências seguras para a construção de valores e pensamento crítico.

A educadora Tania Zagury, ao discutir os desafios contemporâneos da educação familiar, ressalta que o diálogo é uma das ferramentas mais importantes para a formação moral das crianças:

 

“Educar exige presença, escuta e coerência. Valores não são ensinados apenas por discursos, mas principalmente pela convivência e pelo exemplo.” (ZAGURY, 2002).

 

Quando a família estabelece um ambiente de confiança, a criança sente-se mais segura para compartilhar dúvidas, inseguranças e experiências ao longo de seu crescimento.

 

Escola: um espaço de formação integral

 

Se a família é o primeiro ambiente de socialização, a escola é o espaço onde a criança amplia significativamente seu repertório cultural, social e cognitivo.

Nesse contexto, temas relacionados à convivência, ao respeito às diferenças e à compreensão da realidade social também fazem parte do processo educativo.

O filósofo e educador brasileiro Yves de La Taille, pesquisador do desenvolvimento moral, enfatiza que a escola tem um papel fundamental na formação ética dos estudantes:

 

“Educar moralmente não é impor regras, mas ajudar o aluno a compreender o sentido das normas e o valor do respeito ao outro.” (LA TAILLE, 2006).

Por isso, o ambiente escolar busca abordar determinados temas de forma pedagógica, científica e adequada às diferentes faixas etárias, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento crítico e da convivência respeitosa.

Essa perspectiva está alinhada às orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que destaca a importância de promover o desenvolvimento integral dos estudantes, contemplando dimensões cognitivas, sociais, emocionais e éticas.

 

Família e escola: uma parceria indispensável

 

Quando se trata da formação de crianças e adolescentes, família e escola não são instituições concorrentes — são parceiras no processo educativo.

Enquanto a família oferece vínculos afetivos e referências de valores, a escola amplia o horizonte cultural e promove experiências de convivência com diferentes perspectivas.

Quando ambas caminham em sintonia, criam um ambiente de segurança e confiança no qual as perguntas deixam de ser motivo de desconforto e passam a ser oportunidades educativas.

Afinal, crescer envolve descobrir, questionar e reinterpretar o mundo. E, nesse percurso, talvez o papel mais importante dos adultos não seja ter todas as respostas, mas estar disponível para dialogar com responsabilidade, respeito e escuta verdadeira.

Referências Bibliográficas
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: Ministério da Educação, 2018.
LA TAILLE, Yves de. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed, 2006.
PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.
PIAGET, Jean. Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.